Nº 48 | novembro / dezembro 2012
Entrevista

Prof. Nelson Pesciotta | Da Redação

Próximo de se tornar nonagenário, Nelson Pesciotta, que completou 89 anos no último dia 3 de novembro, mantém admirável vitalidade.

Sua disposição para o trabalho e para as causas do Vale do Paraíba fizeram-no respeitado não apenas em Lorena, cidade que adotou como sua, mas nos demais municípios da região.

De personalidade tenaz, Nelson Pesciotta atuou na educação básica e superior, na política local (em cargos do legislativo e do executivo), em entidades voltadas para a preservação e disseminação da história e da cultura regionais, e sempre trazendo a marca constante da determinação, fazendo dele uma espécie de moto-contínuo pela ampliação da consciência humana, o que parece ser a causa maior de sua infatigável dedicação aos bens culturais e aos instrumentos de sua propalação.

Em seu perpetuum mobile pelas causas valeparaibanas, o Prof. Nelson faz delas causa instrumental para o desiderato maior do aperfeiçoamento humano. Parece ser essa ética de humanidade, não manifesta e nem sempre explícita aos desavisados, que o propele de forma tão intensa à ação.

Seus desapegos às doutrinas de naturezas diversas o aproximam de um universalismo que, aparentemente, geraria um paradoxo diante de seu interesse pelos estudos regionais. Mas, ao contrário, essa é mais uma de suas heterodoxias. Não se trata de ver o múltiplo como manifestação do uno, mas a diversidade como resultado do incomensurável potencial criativo das sociedades humanas.

Nome de relevo no cenário regional, o professor e jornalista Nelson Pesciotta, pouco antes de seu aniversário, no dia 1 de novembro com a peculiar sabedoria que somente uma experiência refletida pode conceber, respondeu perguntas formuladas pela redação. Um privilégio poder publicá-las.

O LINCE – Poderia falar um pouco de suas origens?
NELSON – Meus pais, ambos filhos de imigrantes italianos, casaram no final de 1922 em Campinas, onde residiam as duas famílias e foram morar imediatamente em Pindamonhangaba, ele como tintureiro e ela o ajudava no serviço profissional e nos cuidados da casa, no centro da cidade mas em um ambiente pobre. Tendo engravidado, minha mãe foi ter o parto com minha avó em Campinas, onde nasci no dia 3 de novembro de 1923, sendo ali registrado. Por engano do cartório, que naturalmente tinha dificuldade em lidar com o grande número de descendentes de italianos, fui registrado com o sobrenome PESCIOTTA, quando meu pai era PISCIOTTA, engano que só descobri mais tarde e que permaneceu por economia, dado que a mudança de nome custaria caro para meus pais.

Por quê Pindamonhangaba? Alguém sugeriu a meu pai essa cidade que parecia, na época, prosperar com a instalação de uma escola superior de farmácia e odontologia que, infelizmente não durou muito.

Os tempos eram duros e a fraca economia foi sucumbindo pela crise do café. Muita dificuldade financeira, mas eu pude ostentar um belo uniforme quando ingressei no Ginásio Municipal. Com imensa honra usava-o aos domingos para ir à sessão da tarde no cinema local, mesmo suando bastante. Era a mostra da minha “ascenção social”. Já no Externato S. José, fazendo o curso primário em escola paga, convivi com os meninos das famílias mais aquinhoadas da cidade.

Apesar das dificuldades financeiras eu fui algumas vezes a Campinas com minha mãe e me enchia de glória, ali, ao puxar o cordão da campainha dos bondes elétricos com que íamos à casa do meu avô paterno. Aos 11 anos já conseguia viajar sozinho. Grande conquista!

O LINCE – Quando e por que Lorena?
NELSON – Fiz o curso ginasial em Pindamonhangaba, no Ginásio Municipal (pago!) e a Escola Normal Municipal (paga) em Taubaté. Minha mãe achava lindo fosse eu ser professor, mas eu mesmo não estava muito animado com esse programa. Terminado o curso normal em 1941, abre em Campinas uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e lá fui eu, hospedado na casa de minha tia Maria, irmã de minha mãe. Comecei ali o curso de Ciências Sociais, onde as aulas de Matemática não faziam o meu gosto; no meio do ano, devido a alterações havidas no currículo do ensino médio, o curso foi encerrado e os alunos puderam optar por pedagogia ou filosofia. Optei por esta.

Como escrevia razoavelmente bem, tornei-me, por acaso, jornalista, profissão que exerci, com encanto, até pouco depois de terminado o curso superior em 1945. Fui, então, para Pindamonhangaba morar com meus pais e trabalhei por pouco tempo em Taubaté, no Correio do Vale do Paraíba, criado e sustentado pela CTI, da família Guisard.

Iniciado no magistério, primeiro como orientador educacional e depois como professor de Sociologia, que me levou, ao ser aprovado no concurso de ingresso, para a Escola Normal Euclides da Cunha, em S. José do Rio Pardo. logo descobri minha vocação para diretor, cargo que assumi, em caráter efetivo, em 1951. Em 1952 exerci o cargo de diretor no Ginásio Estadual Newton Prado, na cidade de Leme. Foi um tempo muito bom mas me doía a saudade do Vale do Paraíba. Em 1953, então, consegui minha remoção para a única vaga existente no Vale – o Ginásio Arnolfo Azevedo em Lorena, cidade que não conhecia. Assumi o cargo no dia 9 de setembro de 1953,com a expectativa de aqui ficar uns 4 anos e depois rumar para a capital do Estado. Ledo engano... A vida, essa traquina, me fez ficar até hoje, 59 anos depois.

Meus pais vieram morar em Lorena e aqui faleceram. Vim com um filho e outro encomendado, e aqui nasceram mais quatro. Entre alegrias e tristezas – mais alegrias que tristezas – sobrevivi! Perdi a esposa fiel e generosa, modelo de mãe insuperável, mas resisti. Tive contrariedades mas nenhuma queixa. O destino talvez me leve de Lorena mas eu resisto à idéia de mudança.

O LINCE – Qual é sua formação acadêmica?
NELSON – Preocupado com o meu trabalho no ensino secundário, não tive maior sucesso na busca de aperfeiçoamento. Depois da Filosofia só consegui fazer o curso de Direito na Unitau, concluído em 1967, ano em que também iniciei minha experiência, felizmente bem sucedida, no ensino superior. Na formação da Universidade de Taubaté, graças à minha experiência na fiscalização e organização das escolas, fui logo chamado para exercer a Pró-Reitoria de Graduação, de grande responsabilidade, de 1976 a 1980.

O LINCE – Fale-nos um pouco de sua experiência como educador?
NELSON – O exercício da direção de escola abriu caminho para a supervisão escolar, que assumi com ação em todo o Vale do Paraíba, com o que ampliou consideravelmente o meu conhecimento pedagógico. Bacharel em Direito, pude participar de algumas comissões de inquérito e de relatórios em questões disciplinares. Mas não abandonei a sala de aulas. Lecionei disciplinas pedagógicas inicialmente e depois Sociologia na Unitau. Paralelamente, lecionei Humanidades e Ciências Sociais na antiga FAENQUIL, hoje USP, de Lorena. E ainda achei tempo para lecionar em escolas superiores isoladas da região.

Fui um professor austero que expunha a matéria com paciência e cobrava o conhecimento dos alunos. Minha esferográfica vermelha não perdoava erros de linguagem. Mas dei lições de vida e amizade aos alunos, que sempre me respeitaram.

Tem o meu nome o Colégio Técnico da hoje USP em Lorena, homenagem dos meus antigos companheiros.

O LINCE – Durante sua gestão como Secretário da Cultura de Lorena, um destaque deve ser conferido a uma série de publicações sobre a cidade. Fale-nos um pouco desta proposta.
NELSON – Por 9 anos fui diretor do Departamento de Educação e Cultura de Lorena e por mais 7 anos Secretário de Cultura. Tive, nessa segunda experiência, o apoio da Sociedade dos Amigos da Cultura, com a qual e recursos da Prefeitura consegui republicar algumas obras importantes para a História e a Cultura de Lorena que estavam esgotadas.

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Inventei também um jornal mensal da Secretaria da Cultura, que era distribuído gratuitamente de casa em casa por uma fornecedora de gás em bujões. Criei as Domingueiras na Praça, alegrando a nossa praça central na noite dos domingos, dando oportunidade a artistas locais e das cidades vizinhas. Também consegui a criação e o funcionamento do COMPHAC – Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Arquitetônico e Cultural, que assegurou a preservação de espaços públicos e edificações de interesse histórico. A Casa da Cultura esteve franqueada aos produtores culturais, que ali realizaram exposições e conferências.

O LINCE – Por muitos anos o senhor foi Presidente do Instituto de Estudos Valeparaibanos. Conte-nos um pouco dessa experiência e das conquistas mais importantes durante o período em que esteve à frente de tão respeitada instituição.
NELSON – O Instituto de Estudos Valeparaibanos esteve sob minha presidência duas vezes; a primeira por 2 anos, em data bem distante, e depois por mais de 20 anos, até o final de 2011, quando renunciei a mais um ano de mandato, porque senti a necessidade de renovar a direção e as atividades da entidade, que tem cerca de 150 membros, distribuídos por cidades valeparaibanas e capitais dos estados de S. Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Nesse período o IEV programou 25 simpósios de História do Vale do Paraíba, inicialmente a cada dois anos e depois anualmente. Também mantivemos a publicação mensal de um jornal informativo cujo principal objetivo é manter interessados os filiados, que geralmente não conhecem pessoalmente os demais.

Sem receber auxílios oficiais e mantendo-se com as modestas contribuições dos associados, o IEV tem procurado incentivar na região os valores pessoais e de comunidades, com prêmios e destaques significativos. A biblioteca do IEV, que recebeu o nome do prof. José Luís Pasin, fundador e incentivador da instituição, e que está instalada sob convênio na Unisal, em Lorena, tem um conjunto de obras de grande interesse para as cidades e todo o Vale do Paraíba do Sul, incluindo doações do próprio prof. Pasin, do historiador Paulo Pereira dos Reis e de Tom e Tereza Maia. Tem também muitos recortes e documentos e está aberta para consultas dos estudantes em geral.

Representei o IEV em inúmeras atividades, notadamente no Comitê de Bacias Hidrográficas do Rio Paraíba do Sul, onde fui vice-presidente por dois anos.

Nos últimos três anos, feito Ponto de Cultura, o IEV ministrou, com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado, um curso de Educação Patrimonial e Ambiental para professores das redes municipais de ensino.

O LINCE – Recentemente, o senhor liderou um grupo de escritores, pesquisadores e professores universitários de Lorena para a criação da Academia de Letras de Lorena. Com que propósito? Ou seja, o que significa para uma cidade possuir uma Academia de Letras?
NELSON – De há muito sou membro correspondente da Academia de Letras de Campos do Jordão, agora também da Academia Pindamonhangabense de Letras. Em 2008 fui procurado por amigos interessados na fundação de uma Academia de Letras em Lorena e que pediram o meu apoio. Comecei, então, a trabalhar com esse grupo, reunindo adeptos da idéia e pessoas que tiveram de ser convencidas da utilidade da entidade, que foi, enfim, fundada em março de 2009 e instalada solenemente em agosto desse mesmo ano. Fui eleito presidente na primeira diretoria e dois anos depois fiquei sendo o vice-presidente.

O interessante na existência da Academia é a revelação de valores literários que permaneceram ignorados até então e o desenvolvimento de relações pessoais que de outra forma seriam impossíveis. A Academia está consolidada, felizmente.

O LINCE – Como o senhor vê a relação entre cultura e política e entre cultura e educação?
NELSON – Não vejo incompatibilidade entre tais atividades, mas ressalvo que muito depende do caráter das pessoas. O território da cultura está sempre aberto para quem está interessado na expressão da sua personalidade, separando uma coisa da outra.

Educador pode ser político? Claro que pode, desde que o espaço da vida escolar não seja invadido e deteriorado pela militância partidária. Na versão já clássica, o homem, por não viver solitariamente, é um na “polis”, no conjunto social. Parece-me estranho que alguém negue a condição de político mas abomino a politização intencional da cultura e da educação, que pode criar problemas de toda espécie e de difícil solução. Estive sempre transitando por estes três espaços e me sinto muito bem.

O LINCE – Nelson Pesciotta: intelectual ou ativista cultural? Por quê?
NELSON – Não me vejo como intelectual, pois reconheço minhas limitações de conhecimento e experiência. Tendo mais “inspiração” do que “transpiração”, a sorte me fez mais reconhecido do que mereço. Mas sei avaliar competências e prezar esforços de trabalhadores da inteligência. Posso definir-me como jornalista – uma das minhas inspirações mais gostosas, mesmo pensando na jocosa definição de jornalista: um especialista... em generalidades! Mesmo assim, tenho interesses culturais específicos e já ajudei muita gente a achar o seu rumo e o seu destino. É o que me resta de educador... que fui sem muito querer.

O LINCE – Nelson Pesciotta por Nelson Pesciotta.
NELSON – Olhando no espelho vejo as rugas que me deram os 89 anos de vida ativa e um pouco descontrolada. Trabalhei desesperadamente. Sofri perseguições. Não me firmei religiosamente, nem politicamente, embora às vezes tente ser político (acabo de fracassar na tentativa de me eleger vereador!) Tenho memórias mas não as registro em escritos porque desconfio que não teria leitores. E como meu estilo é cáustico é melhor esquecer certos episódios. Com seis filhos, nove netos e dois bisnetos agradeço a Deus por ter colocado na minha família pessoas boas e sensatas. Tenho amigos, não tantos como quisera, e até alguns admiradores!

Sou uma pessoa sem mágoas ou ressentimentos. Fracassei em alguns projetos de vida, mas não remôo o passado. Se fiz algum bem não cobro o preço e se o mal pratiquei vou receber a conta algum dia. Logo, logo...
 
 
Valle e Azen Sociedade de Advogados ACIA
 
 
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