Nº 46 | julho / agosto 2012
Retrato

Dr. Zerbini, cem anos | Thereza Regina de Camargo Maia

“No Brasil, a cardiologia teve duas fases: antes e depois de Zerbini”.
Carlos Lacaz in Folha de São Paulo. 24.10.1993

Em Guaratinguetá, em modesta casa da rua Visconde, no local onde hoje se ergue a estação rodoviária, a 7 de maio de 1912, nasceu Euryclides de Jesus Zerbini. Veio prematuro ao mundo, pelas mãos do Dr. Homero Otoni, como caçula dos seis filhos do casal Ernestina e Eugênio Zerbini.

Eugênio Zerbini veio com a esposa para Guaratinguetá no princípio do século, como professor de História e Geografia da Escola Complementar então instalada na cidade, hoje Escola Estadual “Conselheiro Rodrigues Alves”. A família vivia uma vida simples, mas de muito estudo e disciplina, sob a severa orientação do pai.

Tendo completado suas primeiras letras em Guaratinguetá o jovem Euryclides, que era familiarmente chamado de Pequeno ou Euri, prosseguiu seus estudos no Colégio Diocesano Santa Maria, em Campinas, para onde o Professor Eugênio se transferiu. Em 1929, quando completou 17 anos, por sugestão paterna, uma vez que não sentia vocação para esta ou aquela carreira, ingressou na Faculdade de Medicina do Estado, única existente em São Paulo.

Era ainda acadêmico de medicina quando participou da Revolução Constitucionalista de 1932, tendo servido em Taubaté, Natividade da Serra, Cunha e Ubatuba. No front conheceu o Dr. Alípio Correia Netto, cirurgião que mais tarde seria seu professor na faculdade. Foi desse contato que surgiu seu gosto pela cirurgia, que Zerbini passaria a lecionar depois de formado. Livre-docente aos 28 anos, o Dr. Zerbini se especializou em cirurgia torácica, viajando para aperfeiçoamento nos Estados Unidos, onde trabalhou ao lado de Evarts Grahan e Christian Barnard, o pioneiro em transplantes de coração no mundo.

Data de 1942, sua primeira cirurgia cardíaca, salvando um menino de seis anos, vítima de acidente em uma oficina mecânica. Especializando-se na cirurgia cardíaca, o Dr. Zerbini montou em 1947 uma equipe de especialistas no Hospital das Clínicas. Em 1968, cinco meses após a operação pioneira de transplante cardíaco feita cinco meses após a operação pioneira de transplante cardíaco fita na África do Sul pelo Dr. Christian Barnard, o Dr. Zerbini surpreendeu o Brasil e o mundo realizando o primeiro transplante cardíaco no Brasil e nas Américas.

O mestre do transplante cardíaco brasileiro, com mais de 150 títulos honoríficos nacionais e internacionais, centenas de congressos, cursos ministrados a especialistas e uma infinidade de trabalhos publicados, nunca escondeu que sua obra somente foi possível graças ao aprimoramento contínuo de técnicas e muito estudo: “é a dedicação ao trabalho que distingue um individuo do outro; não acredito em talento”, dizia.

Em 1975 vê realizado o seu grande sonho com a construção do Instituto do Coração (INCOR) e aos 73 anos, em 1985, conseguiu outro sucesso, com o primeiro transplante cardíaco em um portador de doença de Chagas.

Dos trabalhos do Dr. Zerbini e de sua equipe nasceram técnicas de construção e implantação de prótese para válvulas cardíacas e aparelhos para circulação extra-corpórea do sangue durante a cirurgia; criaram-se marca-passos e novas técnicas cirúrgicas, inclusive para a correção de defeitos cardíacos congênitos.

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O Dr. Zerbini era um homem de hábitos muitos simples. Sentia, entretanto, um grande orgulho, acreditando ter sido “um bom professor, pois meus alunos já estão me ultrapassando...” A biografia do Dr. Zerbini “é o retrato de um homem obsessivo, um operário da medicina, que conseguiu o que quis a força motriz de seu trabalho”, conclui Celso Arnaldo Araújo, seu biógrafo.

Da primeira operação cardíaca em 1942 até outubro de 1993 foram cerca de cinquenta mil cirurgia, “milhares delas no tênue limite entre a vida e a morte...”

“Como não frequentava festas, não passeava nunca, só poderia arrumar uma namorada se ela fosse paciente, enfermeira ou médica”. Deu a terceira opção. De fato, o Dr. Zerbini casou-se em 1949, com uma médica, a Dra. Dirce da Costa. Havia sido sua aluna e, formada, passou a trabalhar com ele, sendo sempre sua grande colaboradora. É dela o desenho da “maioria dessas máquinas extra-corpóreas, que fazem as vezes do coração durante a cirurgia”. O casal teve três filhos, Roberto e Ricardo, engenheiros e Eduardo, médico, que faleceu em acidente, logo após a formatura.

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Thereza Regina de Camargo Maia é autora de diversos livros e diretora do Museu Frei Galvão, em Guaratinguetá.

 
 
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