Nº 44 | março / abril 2012
Republicando

Emílio Ribas - um paulista que honrou a sua terra | José Augusto César Salgado

Conta-nos Rui Barbosa, na sua memorável conferência sobre Oswaldo Cruz, que, ao ser convidado a falar do grande higienista brasileiro, procurou eximir-se do honroso encargo, por não se reconhecer capaz de tratar de assuntos científicos especializados, inerentes à personalidade que lhe serviria de tema, mas alheios à sua seara.

“Como – objetou Rui Barbosa – descrever os trabalhos de Oswaldo Cruz, caracterizar-lhes a expressão, medir-lhes o alcance, tomar-lhes o relevo, estimar-lhes os resultados, sem entrar pela região dessas ciências, em cujo serviço viveu e ganhou os louros de sua vida?”

Se Rui Barbosa assim se manifestou, qual deveria ter sido minha resposta a quantos, generosa mas desavizadamente, se lembraram de meu nome para a inauguração do ciclo de palestras, em que, mais uma vez, nesta cidade, será exaltada a obra de Emílio Ribas?

Entretanto, não relutei. Fiz ouvidos moucos aos argumentos de minha incompetência e aquiesci, de pronto, em aceitar o desvanecedor convite.

Que motivos me levaram a esse atrevimento?

Talvez, a voz da terra e a voz do sangue. Sou, como Emílio Marcondes Ribas, filho desta nobre cidade de Pindamonhangaba. Paroquianos ambos da velha matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso, onde recebemos o batismo cristão, nossas origens se entrelaçam e se confundem na linhagem dos Marcondes, que deita raízes na Sereníssima República de Veneza, pátria daquele nosso remoto ancestral, Dionízio Maricondi, descendente de “soggetti illustri” “nato nella contrada di San Leone” e paroquiano da igreja de São Bartolomeu.

Dir-se-á que esses vínculos não atribuem autoridade para falar do eminente cientista.

Não o contesto. Mas, – e eu o ponderei a mim mesmo como a escusar-me da ousadia – minha tarefa se limitará a respigar na farta messe dos que vêm estudando, sob múltiplos aspectos, a personalidade de Emílio Ribas. Pois, não é certo, que na sua bibliografia se enumeram cerca de cem trabalhos?

Assim, na falta de recursos próprios, eu iria tomá-los, de empréstimo, na fazenda alheia.

Terei errado? Indagação ociosa, quando aqui estou. E a exemplo de certo escritor francês, afeito a garimpar além de seu parco terreiro, só me resta repetir:

“Je prends mon bien ou je le trouve”.

Consequentemente, nada de inédito se encontrará na minha palavra. Esta será, apenas, o eco de vozes mais autorizadas.

Pindamonhangaba, que ostenta entre seus títulos os de “Princesa do Norte” e “Cidade Imperial”, pode atribuir-se, também, o de “Berço da Inteligência”.

Historiadores e cronistas, nacionais e estrangeiros, já lhe assinalaram, desde seus primórdios, essa característica que a singulariza, através do tempo.

Emílio Zaluar, enamorado dos encantos desta cidade deu-lhe a primazia entre todas as de seu roteiro de viagem, como se vê no livro “Peregrinação pela Província de São Paulo”. “Nesta terra de predileção – escreveu ele – ao lado da pompa de uma natureza luxuriante acelera-se o desenvolvimento material e brota como espontâneo o talento e o gênio de seus filhos”.

Afonso de Taunay, ao prefaciar o mesmo livro, na edição comemorativa do IV Centenário de São Paulo, sublinhou os encômios do historiador luso, com a explicação materialista de que o fastígio desta cidade era apenas um milagre do café. No meu opúsculo, “Pindamonhangaba, Cidade Imperial”, pedi vênia para discordar do Mestre:

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– Milagre do café? Não. Se assim o fosse, outras cidades mais ricas em produção cafeeira teriam superado socialmente o burgo dos irmãos Leme. A causa da maravilha, que tanto impressionou o autor da “Peregrinação pela Província de São Paulo” estava na raça, naquela “gente de prol”, que povoou a primitiva freguesia, destacada do feudo da Condessa de Vimieiro.

Razão tinha Emílio Zaluar, ele que soube louvar tão alto os primores dessa terra e que bem merece, por isso, a consagração de seu nome, numa das ruas da cidade.

Agora, vai falar o publicista alemão Maurício Lamberg: “Essa cidadezinha tem algo de particular que não se encontra em outros lugares semelhantes e que eu sentia sem poder explicar. Os habitantes parecem estar mais adiantados intelectualmente do que outros de velhos centros idênticos que eu visitara”.

Foi o nosso Monteiro Lobato, por vezes irônico, mas sempre perspicaz nos seus juízos, quem deu a esta cidade o epíteto de “Terra Roxa do Talento e da Aptidão”. E disse mais: “Pinda oferece um fenômeno notável no meio de outras cidades de sua zona, tal qual Campinas na sua; e esse fenômeno é o entranhado culto da educação de seus filhos.

Constituiu-se em seu seio uma verdadeira aristocracia intelectual e do enxame de representantes com que dotou as carreiras liberais muitos alcandoraram o vôo, fugindo do ambiente estreito da notoriedade urbana para o céu desafogado das celebridades nacionais.

E essas glórias “Pinda não as deixa de lado, azinhavrando à pátina do olvido, antes as cura com amor, e nítidas as traz constantemente na memória e no coração – como num panteon vivo”.

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Conferência proferida por José Augusto César Salgado na Câmara Municipal de Pindamonhangaba, aos 29 de abril de 1966, no ciclo de palestra promovido pela Sociedade Paulista de Medicina e publicada na Revista do Ateneu Paulista de História, n. 3, Ano III, Setembro de 1966, pp. 25-36.

 
 
 
 
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